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O nascimento do hospital - 26/03

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O hospital com a finalidade terapêutica data do final do século XVIII. Nota-se que a consciência de que o hospital pode e deve ser um lugar de cura formou-se por volta de 1780 e então apareceu uma nova prática com visitas e observações sistemáticas e comparadas de hospitais. Ocorreram diversas viagens, destacam-se a de Howard o qual visitou, na Europa, diversos hospitais, prisões e lazaretos entre 1775 e 1780, e a de Tenon, francês que viajou a pedido da Academia de Ciências diante do problema da reconstrução do Hotel-Dieu em Paris. Algumas características das viagens:

- Buscavam definir um programa para reformar e reconstruir hospitais. Considerava-se que nenhum plano arquitetônico abstrato poderia formar um bom hospital. Precisava-se de um inquérito empírico para tal programa.

- Howard e Tenon analisaram todo o interior do hospital. Deram a cifra de doentes por hospital, relacionaram a quantidade de doentes, número de leitos e extensõs das salas. Tenon relacionou fenômenos patológicos e espaciais, relatou que parturientes tem uma taxa maior de mortalidade quando postas em sala acima de feridos. Tenon também buscou saber do porque a operação trépano foi bem-sucedida no hospital Bethleen e não no Hôtel-Dieu.

- Não eram arquitetos envolvidos em tais descrições dos hospitais, Tenon era médico e Howard tinha competência quase sócio-médico.

O hospital na Idade Média na Europa não era destinado a curar. Distinguiam-se as séries médica e hospitalar. A medicina era praticada fora de hospitais e o hospital não era uma instituição médica.

Anterior ao século XVIII, os hospitais buscavam dar assistência aos pobres. Era também lugar de separação e exclusão. Era importante dar assistência aos pobres, pois esses sendo doentes poderiam transmitir doenças, pondo em risco a saúde geral da população. Até século XVIII, o enfoque dos hospitais não era o doente para cura, mas sim o pobre morrendo. O hospital tornou-se um morredouro, lugar para morrer. Pessoas do hospital não se destinavam a cura dos pacientes, mas em conseguir a própria salvação. Em geral era um pessoal caritativo - religioso ou leigo.

Quanto ao médico era excluída de sua formação a prática hospitalar. A transmissão de receitas era o que o qualificava e não as experiências que teria assimilado. O médico intervia na doença em torno da noção de crise, período no qual se afrontam a natureza sadia do indivíduo e o mal que o ataca, observando o doente para descobrir o momento que ocorreria. Na cura tinha-se um jogo entre natureza, doença e médico.

Assim, não se permitia na prática médica organizar um saber hospitalar e também não se permita em hospitais a intervenção da medicina.

O primeiro fator para a transformação em um hospital medicalizado e uma medicina hospitalar foi a anulação de efeitos negativos do hospital, de que ele transmitia doenças que poderiam afetar pessoas internadas e se espalhar pela população e também de que ele era foco perpétuo.

A hipótese de que o hospital primeiramente se medicalizou por meio da anulação de desordens que possuía pode ser comprovada no fato de a primeira grande organização hospitalar localizar-se nos hospitais marítimos e militares, no século XVII. Tais hospitais eram foco de desordem econômica, através deles se fazia tráfico de produtos que se escondiam nos doentes. Surgiu então o primeiro regulamento de hospital, no século XVII, o qual visava inspecionar cofres de médicos, marinheiros, e boticários que detinham hospitais. Começou com isso o enquadrinhamento econômico.

Hospitais militares e marítimos originaram o modelo inicial de reorganização hospitalar devido a regulamentações econômicas rigorosas e a outras medidas pelo fato de o preço dos homens tornarem-se mais caros. O exército tornou-se mais técnico com o uso de fuzis e exigiu um treinamento dos homens, o que os valorizava e deixava-os mais custosos. Com tal mudança na técnica do exército, era necessário nos hospitais vigiar os soldados para não fugirem, impedir a morte por doenças e também cuidar para que quando curado não fingissem estar doentes. Assim, reorganiza-se o hospital militar. Acontecem fatos semelhantes no hospital marinho.

Toda esta reorganização se deu principalmente a partir de uma política: a disciplina. Mecanismos disciplinares existiam até o século XVII e XVIII de forma fragmentada quando foram a partir de então aperfeiçoados em uma nova técnica de gestão para homens. É no exército e nas escolas que aparecem essas novas técnicas de poder.

Nota-se nesta época:

- A arte de distribuição espacial das pessoas. Com a aquisição do fuzil fez-se necessário estudar a distribuição dos soldados para que ficassem numa posição de eficácia máxima. A disciplina consistia, a princípio, na análise do espaço.

- A disciplina exercia seu controle sobre o desenvolvimento de uma ação e não sobre o resultado.

- A disciplina, sendo uma técnica de poder, exigia vigilância perpétua e constante das pessoas. Não era suficiente olhar às vezes ou analisar se o que fizeram está dentro das regras.

- A disciplina necessitava de registro contínuo. Detalhes, acontecimentos e elementos disciplinares não podiam escapar do saber. O conjunto de técnicas da disciplina tem alvo na singularidade dos indivíduos.

Foram as aquisições de mecanismos disciplinares que possibilitaram a medicalização dos hospitais. Tais aquisições de deram: por razões econômicas, pelo preço atribuído aos indivíduos e pela necessidade de evitar a propagação de epidemia.

No século XVIII, o grande modelo de doença era a botânica, classificação de Lineu. Assim, doença era como um fenômeno natural tendo espécies, características observáveis, cura e desenvolvimento semelhantes a uma planta. Com isso, pessoas sadias ao serem submetidas à ação do meio são suporte de doenças. Isso direcionou a cura na intervenção médica não mais a doença, mas ao ambiente que circundava o indivíduo, como ar, água, temperatura e alimentação.

A origem do hospital está no ajuste de tais processos: deslocamento da intervenção médica e disciplinação do ambiente hospitalar. Desse modo, doentes precisavam ser postos em locais que pudessem ser vigiados e que possibilitassem o registro do que acontece.

Com este duplo nascimento do hospital observaram-se várias características:

1º) Em primeiro lugar, o hospital deveria se localizar no interior da medicina do espaço urbano. Em segundo lugar, sobre a distribuição interna de seu espaço alguns critérios deverão ser seguidos. Se meio realmente influência na cura, então será necessário construir um meio individualizado para cada doente. Também deve-se ter um meio manipulável que possibilite alterar a temperatura, refrescar o ar.

2º) O responsável pela organização hospitalar passa a ser o médico. Ele é quem orienta como construí-lo e como organiza-lo. O fato de o médico controlar o regime dos doentes o faz assumir, em parte, também o funcionamento econômico hospitalar. Somado a isso, as visitas do médico aumentam cada vez mais a ponto de em torno de 1770 exige-se que um médico resida no hospital.

O poder do médico também se manifesta nas visitas nas quais o médico vai na frente seguido por toda hierarquia hospitalar: assistentes, alunos, enfermeiras (responsáveis por anotar).

3º) Organização de um sistema de registro permanente de tudo que acontecia. Destacam-se técnicas de identificação de doentes com etiquetas nos seus punhos. Em cima do leito encontrava-se a ficha com o nome e a doença do indivíduo. Forma-se um registro de entradas e saídas, registro de cada sala organizado pela enfermeira-chefe, registro da farmácia, registro médico durante as entrevistas o qual mandava anotar.

Formou-se um campo documentar de todo interior do hospital, assim além de lugar de curar era também de registro, acúmulo e formação de saber. A partir de então é que o saber médico tem seu lugar no hospital. Com isso, naturalmente entre 1780/1790 passa-se a afirmar que a formação normativa do médico deve ter passagem hospitalar. Assim, o hospital passou a ser um lugar que além de curar deve formar médicos.

A clínica surge como dimensão essencial do hospital e significava a organização hospitalar como lugar de formação e transmissão de saber.

A medicina que se formou no século XVIII foi tanto medicina do indivíduo quanto da população. Posteriormente é que ocorre redistribuição destas medicinas, no século XIX.


Referências Bibliográficas:

Foucault, M. Microfísica do Poder. 1ª Edição. Graal Editora, 2008.

Rosin, L. Anotação da aula da Disciplina de Psicologia Médica. UNIVILLE. 26/03/2013.

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